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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

COM MILITARES POLICIANDO MORROS, O BRASIL PODE VIRAR UMA COLÔMBIA

Junho/2008, episódio do Morro da Providência: enterro dos quatro jovens 
favelados direta ou indiretamente assassinados por  militares
apenas por terem desacatado sua  otoridade. 

É grande a possibilidade de os militares, exercendo funções policiais, serem contaminados pela criminalidade, tanto que se trata de "uma preocupação constante do próprio Exército, seja por exemplos internacionais, como o do México, seja pela experiência de roubos de armas, com cumplicidade de gente da instituição, seja também pela promiscuidade, sabendo-se que alguns saíram do Exército e foram recrutados pelo tráfico".

A advertência é do antrópologo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, ex-coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do RJ e um dos autores (na verdade, consultor) dos livros Elite da Tropa 1 e 2.

No mesmo sentido, aliás, a colunista Eliana Cantanhêde alertou que, se "as tropas se instalarem e nunca mais saírem, ou ele deixa de ser Exército, ou o Brasil vira uma Colômbia".

Soares continua sendo o principal porta-voz da minoria civilizada que não se deixa mesmerizar pelo enfoque triunfalista e fascistizante com que a grande imprensa está cobrindo os acontecimentos do Rio de Janeiro.

Sua entrevista de hoje (02/12) à Folha de S. Paulo serve como antídoto ao maniqueísmo primário que se tenta impingir à população -- infelizmente, com considerável êxito.

Sabemos como isso acaba: no cerceamento de direitos democráticos, a pretexto de se combater o  satânico dr. No que os cidadãos são induzidos a odiar em cada momento.

Terroristatraficante, ditador, há sempre um grande vilão qualquer para servir de espantalho, de forma que o homem comum jamais reflita sobre o porquê de sua vida ser tão insatisfatória quando há plenas condições materiais para se assegurar uma existência digna a todos os habitantes do planeta, trabalhando muito menos e se realizando muito mais.

Eis, sintetizadas, outras declarações marcantes de Soares:
"O negócio de drogas vai muito bem, obrigado, mas não o tráfico na sua forma que envolve, no Rio, controle territorial, organização de grupos armados, pagamento a policiais, conflito com facções, num contexto político crescentemente antagônico e com pressões sobre os governos, pois a consciência pública vai amadurecendo e se tornando mais refratária a conviver com o ilegal nessa magnitude.

É um sistema muito pesado, caro, arriscado.

O fato de estar em declínio não significa que esteja suspensa a sua capacidade de produzir danos à sociedade, como mortes e todo tipo de violência.

A primeira medida fundamental é fazer com que a polícia pare de participar do tráfico. A parceria entre o tráfico e segmentos policiais corruptos, que vendem armas, alugam Caveirão, ganham percentuais da venda da droga, tem que ser objeto da preocupação prioritária.

Esses traficantes [tradicionais] o são com apoio dos que deveriam cumprir a lei. Então, o mal atravessa os dois lados, não existe essa polaridade [entre bem e mal], e esse é o problema. Quando a autoridade dá ao policial na ponta liberdade para matar, dá-lhe também, indiretamente, a liberdade de não fazê-lo.

Isso começou a gerar negociações varejistas, em momentos de confronto. Mais adiante, transformou-se numa modalidade mais organizada da economia do crime. Até que se chegou, no final dos anos 80 e início dos 90, a um terceiro estágio da economia da corrupção: o acordo, o contrato, o arreglo. Isso faz com que a polícia se torne parceira fixa.

O conflito em São Conrado [há cinco meses] foi fruto de uma redefinição do contrato [entre traficantes e policiais]: inflação, mudança de preço, cobrança de sobrepreço. Os sócios se desentenderam. Em geral, os conflitos são desse tipo.

O tráfico está em declínio, os ganhos estão se reduzindo, então precisa negociar uma redução do que se paga à polícia. E a polícia não aceita e às vezes exige aumento.

O quarto estágio da economia da corrupção: é a milícia. É quando já há uma organização superior: 'Nós não precisamos ser apenas sócios, podemos ser os protagonistas. Vamos buscar lucros participando de forma criminosa de tudo o que puder oferecer algum potencial econômico na vida da comunidade que estará sob nosso domínio, sob nosso terror'.

Mas os milicianos são policiais. Não têm os custos da organização, do acesso às armas. Já estão cobertos. Nós pagamos a maior parte das ações, porque usam a polícia nas invasões.  São muito mais fortes, numerosos, têm mais capacidade de organização, o rendimento é superior, têm visão política.

Outro ponto é a segurança privada. É uma das origens das milícias. Os salários dos policiais são insuficientes. O sujeito tem que complementar a renda. Vai buscar, como nós fazemos, na área de sua especialidade, no caso, a segurança.

Isso é ilegal, as autoridades sabem disso, mas fingem que não veem. As autoridades toleram essa complementação. Veja que situação absurda: o Estado tem um pé na legalidade e um pé na ilegalidade.

É assustador que pessoas tão inteligentes e bem intencionadas se iludam com a fábula de que o bem venceu o mal. Esse mal só existiu até esse momento porque foi alimentado por isso que chamamos de bem.
E, se agora esse mal é afastado, esse bem que é parte do mal parece triunfante. Vamos nos surpreender sendo apunhalados pelas costas, porque parte dos heróis são os que estão nos condenando à insegurança, levando armas e drogas para as favelas".

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domingo, 28 de novembro de 2010

O Rio que eu amo é de Janeiro

Floresta da Tijuca. Foto: Ana Helena Tavares
As pessoas clamam por sangue sem perceber que estão esquartejando a si próprias. Como um queijo suíço que não assume seus buracos, manda-se que a polícia saia matando e criam-se os Batmans (o mais famoso dos milicianos). E troca-se seis por meia dúzia.

Por Ana Helena Tavares (*)

Há décadas, o Rio, hoje totalmente dominado pela família Marinho, vem perdendo força econômica e cultural. Tem sido muito maltratado não só pelos governantes como também por parte de seu povo que não valoriza esta terra. 

Por isso, vale o alerta: quem ama cuida.

Dizem que amor nem sempre gera amor. Talvez. Mas morrerei tentando - isto é prestar um serviço a si mesmo. 

Nesta mais recente crise na segurança pública carioca, duas das maiores emissoras de TV do país – as concorrentes Globo e Record – “uniram-se” para prestar juntas um desserviço à população carioca: a filmagem, durante horas ininterruptas, das operações policiais. Não estou de modo algum pregando que a polícia censure a imprensa. Nem em nenhum momento tentaram isto. Mas o BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM) expressou sua preocupação com a exposição exagerada que prejudica as operações, no que está certíssimo. 

Além de exagerada e prejudicial, a meu ver, é desnecessária. É justamente este tipo de shownalismo que dá às pessoas a falsa idéia de que é tudo um filme, onde a pipoca é o próprio telespectador. Queimando aos poucos junto com cada faísca na tela. Enquanto a imprensa oportunista tem o único intuito de ganhar audiência e vender jornal - porque a tragédia dá lucro e isto foi sempre assim -, as pessoas clamam por sangue sem perceber que estão esquartejando a si próprias. Como um queijo suíço que não assume seus buracos, manda-se que a polícia saia matando e criam-se os Batmans (o mais famoso dos milicianos). E troca-se seis por meia dúzia. E, mais que isso, cria-se um câncer para o sistema. 

Bandido bom é bandido na cadeia - inclusive, os fardados. Melhor ainda se for bandido engravatado, que é aquele que, prendam-se ou matem-se mil pobres, ele aliciará outros para fazer o serviço pesado do tráfico, enquanto ele toma champanhe com dinheiro sujo.

Pelo que se tem visto, parte da população brasileira, com o luxuoso apoio de um punhado de famílias, ainda tem sede de heróis. Falta ter sede de política para cobrar que cheguem às favelas todos os benefícios sociais que conferem cidadania às coberturas. 

Por isso, vale o alerta: amar uma terra é defender o direito de todos os seus cidadãos. O resto é ódio.

E ódio sempre gera ódio. Disto podem estar certos. Na música, “Nomes de Favela”, Moyses Marques garante: “Ou lá na favela a vida muda ou todos os nomes vão mudar". O Rio que eu amo é de Janeiro, não é de Agosto.

*Ana Helena Tavares é jornalista por paixão, escritora e poeta eternamente aprendiz. Editora-chefe do blog "Quem tem medo do Lula?".
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