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quinta-feira, 21 de julho de 2016

SUCESSORA DE FAUSTO, DILMA QUIS FLEXIBILIZAR O PACTO COM MEFISTÓFELES...

Serenidade" de um lado, "falas desconexas" do outro.
O jornalista e historiador Elio Gaspari é um homem de esquerda formado na cultura do velho PCB. Como tal, manteve-se bem distante das ilusões armadas e hoje não crê nem mesmo nas ilusões desarmadas. Move-o, contudo, um elogiável sentimento de compaixão e solidariedade para com o povo sofrido, daí ter assumido posição contrária ao Governo Dilma, principalmente no catastrófico segundo mandato.

Em artigo recém-publicado, ele compara com sapiência e sarcasmo os estilos pessoais: 
"Antes mesmo de completar cem dias, Michel Temer conseguiu dar estabilidade ao seu governo. Começou da pior maneira possível, com um ministério pífio e contaminado, cercado de suspeitas e de ligações inconvenientes. A mágica tem um nome: calma, sangue frio ou mesmo serenidade.  
...A estabilidade trazida pela mágica da calma foi ajudada pela esperança que a blindagem de Henrique Meirelles levou para o Ministério da Fazenda. Por enquanto, na panela da ekipekonomica há muito pirão e pouca carne. Felizmente, o mercado compra esperança e o novo governo mostrou que, com o afastamento dos pedalantes, pior a coisa não fica.   
 ...Temer também teve sorte. O PT ainda não acordou da pancada do início do processo de impedimento e Dilma Rousseff percorre plateias amigas cada vez menores, com falas cada vez mais desconexas. Na última, comparou o seu infortúnio aos acontecimentos da Turquia". 
Meirelles: Lula gostava, Dilma enxotou, Temer foi buscar.
No fundo, para quem analisa a política oficial sem antolhos ideológicos, boa parte do que ele escreveu é o chamado óbvio ululante, começando pelo fato que que, nos moldes da democracia burguesa, Michel Temer governa muito melhor do que Dilma Rousseff.

Afinal, durante os 16 meses do seu segundo mandato ela nem sequer conseguiu governar. Quando estava nos estertores, desistiu até de tentar. Foi ultrapassada pelos acontecimentos e acabou deixando o país e a economia à deriva, enquanto se dedicava, exclusiva e obsessivamente, à defesa vã do seu mandato.

Quanto à gradativa melhora das perspectivas econômicas desde que ela foi afastada, é um fato. Não apenas em razão da incompetência abissal de Dilma, que deu significativa contribuição para atingirmos o terrível patamar de 11 milhões de brasileiros na rua da amargura (desemprego elevado haveria de qualquer maneira, mas os erros bisonhos de política econômica o maximizaram), como também porque o modelo populista encarnado no PT estava esgotado, cá como noutros países sul-americanos.

Todos coincidiram no ponto de partida: a tomada de governos pela via eleitoral. Depois, alguns foram mais longe na tentativa de tomada progressiva do estado, outros acabaram detidos no meio do caminho.

O certo é que não houve uma revolução clássica em nenhum deles. Os explorados não se organizaram para exercer o poder, foram organizados para apoiar governantes caudilhescos. Marx sempre quis torná-los protagonistas da História, não vê-los relegados ao papel de objetos de homens providenciais, servindo de peões no tabuleiro do seu jogo, cujo objetivo final nunca foi o xeque-mate, mas sim a mera perpetuação no poder.

Dez anos depois, só Morales continua no poder.
Como a História cansa de ensinar, regimes caudilhescos podem até prosperar durante a vida física dos caudilhos, mas não sobrevivem a eles. Primeiramente, porque não estimulam o povo a pensar e agir de forma autônoma, preferindo mantê-lo sempre sob controle, daí sua incapacidade de reação quando fica órfão do paizão.

Depois, porque o grande homem costuma temer a sombra de um sucessor e geralmente favorece o mais medíocre dos seus cortesãos, o que acaba colocando cavalgaduras como Maduro numa posição à qual jamais deveriam ser alçados.

No Brasil, o governo petista nasceu atrelado aos compromissos que assumiu em 2002 com o poder econômico, de submeter-se a ele na tomada de decisões macroeconômicas, contentando-se em administrar as miudezas do varejo.

Enquanto a conjuntura internacional favorecia as commodities brasileiras, a receita funcionou. O grande capital continuou com a parte do leão (sem um mínimo de simancol, Lula se vangloriava de que os banqueiros nunca haviam lucrado tanto quanto nos seus governos!!!) e ainda sobrava uma graninha para aumentar a quota de migalhas dos explorados, por meio do bolsa-família e outros mecanismos de transferência ínfima de renda para os pobres.

Quando a maré virou no exterior e o cobertor ficou curto para continuar cobrindo tanto as cabeças garbosas da burguesia quanto os pés sofridos dos coitadezas, Dilma resolveu desconsiderar em certa medida o pacto firmado por seu padrinho com Mefistófeles e tentar fazer a economia pegar no tranco, seguindo o figurino do velho nacional-desenvolvimentismo (ou seja, com os investimentos estatais a empurrando), de forma a manter e talvez ampliar as conquistas sociais das duas gestões anteriores. 
A esquerda já deveria ter começado a mudar em 2013
Sua soberba a cegou: não percebeu que era um passo maior do que suas pernas, impossível de ser dado sem o apoio incondicional do Lula, pois era ele quem mandava (e continua mandando) no PT.

Os capitalistas também não gostaram da brincadeira e, como quem manda no capitalismo são eles, despacharam Dilma com um piparote, fazendo-a desabar no chão do Palácio da Alvorada, do qual será também despejada no mês que vem.

Não lamento, porque é difícil enxergarmos alguma vantagem em ser petista quem gerencia o capitalismo para os capitalistas, ajudando a mistificar os explorados. Mil vezes melhor a esquerda permanecer fora do poder, lutando para conquistá-lo de forma digna; ou seja, sem abdicar de sua verdadeira identidade, nem trocá-la por uma versão light e, muito menos, negociar a alma em acordos podres!

Então, enquanto muitos (principalmente os que perderam suas escandalosas boquinhas) veem a queda de Dilma como uma desgraça, eu a vejo como mais uma oportunidade para construirmos uma esquerda de verdade, revolucionária, no Brasil. Aquela que deveríamos ter começado a forjar tão logo terminou a ditadura de 1930-1945, e depois a de 1964-1985.

Agora que o populismo de esquerda desmoronou e se desmoralizou por completo, temos uma terceira chance para fazer direito a lição de casa, quiçá a última, pois a alternativa para nós neste instante é retomada revolucionária ou marcha para a irrelevância.

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CPMF: REQUIESCAT IN INFERNUM.​

segunda-feira, 1 de julho de 2013

GASPARI REPETE AS FALÁCIAS DAS VIÚVAS DA DITADURA

De vez em quando o Elio Gaspari toma emprestado o chapéu do Reinaldo Azevedo ...
Elio Gaspari, napolitano radicado no Brasil há quase sete décadas, é um homem de esquerda que, em 1968 e anos seguintes, abominava os movimentos contestatórios que sacudiam o mundo. 

Assim como o genovês Mino Carta, mantinha-se devoto do comunismo desvirtuado e burocratizado que  se desmanchava no ar, esfarelando-se sob o impacto das duas grandes primaveras, a de Paris e a de Praga. Virou as costas à juventude mais combativa que o Brasil já produziu e está resmungando até hoje contra quem verdadeiramente lutou, enquanto seus camaradas se omitiam e até sabotavam a resistência heroica que uns poucos Davis opúnhamos à legião de Golias da ditadura militar.

Nunca esquecerei o desgosto que nos causava receber notícias de morte ou torturas de companheiros queridos, simultaneamente com relatos dos esforços mesquinhos da direção do PCB para convencer seus militantes a não nos apoiarem em nenhuma circunstância, a não nos darem abrigo, a dificultarem o acesso a jornalistas de esquerda que poderiam fornecer-nos informações vitais, a não nos disponibilizarem médicos nas emergências, etc.

Chegou até a fazer publicar no principal jornal do partido (Voz Operária, se bem me lembro) a calúnia de que o comandante Carlos Lamarca seria instrumento da CIA. Sentíamo-nos esfaqueados nas costas pelos velhos stalinistas --que, como os leopardos, não perdiam as pintas, hostilizando os adversários pertencentes ao seu próprio campo com virulência muito maior do que a dedicada aos inimigos de classe.

Do ponto de vista moral, nosso martírio significou, para os Minos e os Gasparis, uma fragorosa e contundente derrota, com a qual não se conformam até hoje.  Por mais que eles nos tentem diminuir, somos muito respeitados pelas novas gerações, como os filhos do Brasil que não fugiram à luta.

Eu acrescentaria: salvando a honra do nosso país como os resistentes franceses salvaram a da nação deles. Nem uns nem outros fomos realmente vitoriosos, mas Jean Moulin e seus valorosos companheiros evitaram que a França ficasse para sempre identificada com o colaboracionismo do Marechal Pétain; e nós, que o Brasil ficasse identificado com os especuladores favorecidos pelo  milagre  econômico, tão escandalosamente eufóricos com sua prosperidade repentina quanto indiferentes ao festival de horrores que transcorria sob seus narizes.

Uma dor de cotovelo que atravessou as décadas explica a rancorosa cruzada movida em passado recente pelo Mino contra o perseguido político Cesare Battisti, sem nunca haver tido a dignidade de reconhecer que sua motivação real eram as antigas desavenças entre o (por ele) tão estimado Partido Comunista Italiano e os agrupamentos mais à esquerda.
A perseguição desmedida a Battisti só serviu para desmoralizar Mino 

No fundo, Mino continua até hoje furibundo com os revolucionários que confrontavam verdadeiramente a burguesia, enquanto o PCI traía suas bandeiras históricas, firmando um compromisso podre com a Democracia Cristã e ajudando a salvar o capitalismo.

Battisti era, para ele, um símbolo daquele repúdio generalizado ao aburguesamento do PCI. Incapaz de autocrítica, Mino não admite até hoje que o fracasso e decadência do  partidão  de lá se deveram exatamente aos conluios com os inimigos de classe, não à atuação dos  autênticos  que acertadamente repudiavam tais conluios (mas, levados ao desespero, acabaram incorrendo em excessos nefastos como o assassinato de Aldo Moro).

Gaspari, por sua vez, continua (tanto tempo depois!) furibundo com os  autênticos  de cá, por não nos termos resignado à impotência enquanto o PCB tentava  civilizar  a ditadura. 

Longe demais das ruas e próximo demais dos gabinetes palacianos, o  partidão  brasileiro sonhava com os militares abdicando do poder em benefício de lideranças paisanas como o governador de São Paulo, Abreu Sodré.

Daí ter convencido Sodré a comparecer e até a discursar nas festividades do 1º de maio de 1968, quando acabou sendo escorraçado do palanque a pedradas pelos trabalhadores do ABC e Osasco, com o apoio do movimento estudantil.

O historiador  vacilão  não nos perdoa por termos atrapalhado os planos conciliatórios do PCB, na verdade quiméricos; naquele tempestuoso 1968, a  linha dura militar acabaria prevalecendo de qualquer maneira sobre a turma do deixa disso!, nem que tivesse de forjar outras farsas como os atentados terroristas do guru maluco Aladino Felix (por ela controlado -- vide aqui).

Vale lembrarmos, p. ex., que o principal pretexto para a imposição do AI-5 adveio de um discurso totalmente sem importância que Márcio Moreira Alves proferiu, apenas para constar nos anais, numa sessão da Câmara Federal transcorrida às moscas. Sua diatribe inócua passaria totalmente despercebida se um jornalista de direita não a tivesse divulgado. E foi pra lá de exagerado o empenho da ditadura em cassar seu mandato. Tudo não passou de uma crise fabricada, enfim. 

Mas Gaspari quer porque quer culpar-nos pela radicalização do regime, nem que tenha de fazer eco às mais imundas falácias das viúvas da ditadura. Os velhos rancores o desnorteiam.

O EPISÓDIO 'ALGOZ E VÍTIMA'
Gaspari teve de indenizar Dulce Maia por falsa acusação 

Foi assim que, em 2008, Gaspari assumiu as mágoas da vítima casual de um atentado contra o consulado estadunidense em São Paulo, ocorrido quatro décadas antes: Orlando Lovecchio Filho teve o azar de estar estacionando seu carro no Conjunto Nacional, em plena madrugada, quando explodiu um petardo lá deixado.  

Indignado com a reparação que a Comissão de Anistia acabava de conceder a um suposto partícipe do atentado, Gaspari escreveu um folhetim lacrimoso sobre a diferença entre o montante a ele outorgado e o valor (inferior) recebido por sua suposta vítima. 

A polêmica provocada por Gaspari terminou miseravelmente para ele (veja mais detalhes aqui):
  • ficou esclarecido que o dito algoz  (Diógenes Carvalho) não era algoz, pois acusado falsamente;
  • Dulce Maia, também inocente da acusação que Gaspari lhe fez, processou-o e obteve vitória exemplar na Justiça;
  • constatou-se que, além de errar a identidade de dois dos quatro autores do atentado, Gaspari também o imputara à organização errada (tinha sido uma ação da ALN, e não da VPR); e
  • o único dos quatro ainda vivo lembrou haver sido processado por Lovecchio, vencendo a batalha jurídica por ter provado documentalmente que a perna do dito cujo não fora amputada em função do ferimento em si, mas sim porque a repressão ditatorial interrompera seu tratamento de emergência para interrogá-lo, só o devolvendo aos médicos quando a gangrena se estabelecera irreversivelmente.
Gaspari tinha duas opções:
  • desqualificar resistentes que, em extrema inferioridade de forças, confrontavam uma ditadura atroz e, no caso específico, não pretenderam atingir ninguém, tanto que programaram o atentado para horário inóspito; ou
  • soltar os cachorros contra um regime que arrancava um cidadão gravemente ferido de uma UTI  por mera suspeita de que fossem um militante atingido pela própria bomba. 
Ter escolhido o primeiro alvo diz muito sobre seu caráter.

Pior: omitiu a informação jornalisticamente mais importante de todo o episódio, aquela que comprovava a negação de socorro por parte de agentes do Estado. A responsabilidade das autoridades é sempre maior que a de particulares.

AGORA, UM DESCALABRO HISTÓRICO
Foi deplorável contrapor à passeata dos 100 mil um episódio tão menor  

O tiro pela culatra de 2008 não lhe bastou como lição: neste domingo (30), Gaspari voltou à carga, recriminando o esquecimento de um episódio menor (talvez por já ter saturado a todos, de tanto que foi explorado pela rede de propaganda ultradireitista) e contrapondo-o a outro infinitamente maior:
"No dia 26 de junho de 1968 aconteceram duas coisas. Às 4h30, de madrugada, o soldado Mario Kozel Filho, de 18 anos, estava na guarita de sentinela do QG do 2º Exército, no parque do Ibirapuera, e viu uma caminhonete C-14 vindo em direção ao portão do quartel. Desgovernada, ela parou num muro. O soldado foi ver o que era, e a C-14, com 50 quilos de dinamite, explodiu e matou-o. Horas depois, numa bela tarde do Rio, a passeata [dos 100 mil] saiu pela avenida.
Seis meses depois o governo baixou o AI-5, ninguém foi para a rua, e o Brasil entrou no seu pior período ditatorial. Não foi a passeata que levou a isso. Ela era o fim de um ciclo. A bomba e o interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época foram o início de outro.
...Festejando-se a memória da passeata, varreu-se para baixo do tapete a lembrança de um erro catastrófico. Passaram-se 45 anos e centenas de pessoas que participaram de atos terroristas se maquiaram como combatentes da causa democrática. Lutavam contra uma ditadura, em busca de outra, delas".
Esta ação, sim, foi da VPR. E no Congresso de Mongaguá, em abril/1969, a organização decidiu nunca mais reagir de forma tão pueril às provocações do inimigo (um comandante militar, em declarações à imprensa, qualificara os resistentes de  covardes, desafiando-os a irem enfrentá-lo  como homens  no seu quartel). 

Tais demonstrações de força foram, dali em diante, vetadas, tanto que a VPR se negou a fornecer a um grupo menor a dinamite por ele solicitada para mandar pelos ares a estátua do Duque de Caxias no Dia do Soldado de 1969.

A morte de Kozel constituiu-se mesmo num  erro catastrófico, até porque o recruta incidentalmente atingido não passava de um pobre coitado. Mas, nem de longe teve a importância que Gaspari lhe atribui, praticamente colocando-a no mesmo plano da maior e mais emblemática manifestação de protesto contra a ditadura dos generais.

Quando os cidadãos pegam em armas para confrontar tiranias, invariavelmente ocorrem incidentes deste tipo. A Resistência Francesa, p. ex., errou muito mais do que a brasileira, sem que a ninguém ocorra jogar-lhe isto na cara. Os franceses são gratos a quem correu riscos e se martirizou por eles.
Outro pretexto para o AI-5

Quanto à  presunção de que a ditadura  entrou no seu pior período  por causa de uns poucos atentados que passavam quase batidos quando as massas contestavam o arbítrio nas ruas, trata-se de uma falácia que Gaspari tomou emprestada das  viúvas da ditadura, sempre à procura de atenuantes para os massacres e atrocidades do regime militar.

A ordem, na verdade, foi inversa: a partir do  interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época, foram pinçados, aqui e ali, pretextos para submeter o país ao totalitarismo absoluto. Tudo serviu: os atentados realmente cometidos pela esquerda, os que a própria ditadura forjou, o discurso incauto de Márcio Moreira Alves e a recusa do Congresso em entregar sua cabeça, uma reportagem de capa famosa da revista Veja denunciando as torturas, etc.

E, com o Brasil praticamente sob estado de sítio, só restou aos resistentes o caminho da luta armada, cujas fileiras, até então numericamente insignificantes, foram em muito ampliadas, recebendo centenas de militantes antes dedicados ao trabalho de massas. Consequentemente, o que era secundário, quase irrelevante, em 1968, passou para o primeiro plano em 1969.

Outra falácia que Gaspari tomou emprestada dos Ternumas da vida  é a de que os resistentes lutávamos por outra ditadura. Historiador relapso, ele  esquece  que havia de tudo entre nós, inclusive católicos indignados com os  pecados  da repressão e dignos defensores da legalidade constitucional, passando por um sem-número de tendências da esquerda. O único ponto em comum era o repúdio à ditadura. 

Nós, da VPR, acreditávamos que, no  day after, seria criado um parlamento com a participação de todos os agrupamentos que haviam combatido o regime militar, para a definição das politicas a serem adotadas. Tínhamos clara consciência de que, inexistindo uma força dominante, as decisões deveriam ser consensuais,  jamais impostas, para não haver risco de cedermos a tentações autoritárias.

Finalmente, as perguntas que não querem calar:
  • por que Gaspari nos execra tanto por supostas e não concretizadas intenções, havendo uma infinidade de crimes efetivamente cometidos e provados, um número tão elevado de ações genocidas e hediondas da ditadura para ele deplorar?
  • por que Gaspari se escandalizou tanto com dois episódios infelizes que para nós representaram exceções, se as torturas foram sempre  regra  para a ditadura e as execuções de prisioneiros indefesos também viraram  regra, a partir de 1971? Uma ou outra situação que fugiu do controle deve ser mais recriminada do que massacres sistemáticos, levados a cabo como uma política de Estado?
Guiado por suas frustrações, Mino Carta fez patética figura durante o Caso Battisti; e Elio Gaspari se desmoraliza cada vez que lança suas catilinárias contra os resistentes que pegaram em armas, invariavelmente acabando por ecoar, como papagaio, a mais rançosa retórica da extrema-direita. 

Ambos deveriam procurar catarse no divã do analista, não no teclado.

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sexta-feira, 14 de junho de 2013

POLÍCIA DO ALCKMIN MATA SAUDADES DA DITADURA

Nunca me senti tão velho como nesta 5ª feira (13), quando, acamado com forte gripe, só fiquei sabendo pela mídia e pelas redes sociais que a Polícia Militar barbarizara o centro de São Paulo, reprimindo bestialmente os manifestantes que (até então) protestavam pacificamente contra o aumento das tarifas de transporte coletivo.

Foi a confirmação do que venho alertando há anos (vide aqui, p. ex.): está em curso uma escalada de fascistização em São Paulo, orquestrada pelo governador  Opus Dei  Geraldo Alckmin, com a cumplicidade de figurinhas carimbadas como o reitor  TFP  João Grandino Rodas (da USP) e tendo como principais provocadores os brucutus da tropa de choque da PM, vulgo Rota (aquela que se orgulha de ter coadjuvado o terrorismo de estado nos  anos de chumbo, que é sempre denunciada pelas entidades internacionais de defesa dos direitos humanos por suas execuções maquiladas em  resistência à prisão e que os vereadores paulistanos da  bancada da bala  querem homenagear com uma salva de prata).

A aposta dessa gente é numa nova ditadura. E, se o governo federal a continuar subestimando, o ovo da serpente vai ser chocado até que uma crise de maiores proporções crie um cenário favorável à sua eclosão. Os petistas parecem gostar de viver perigosamente; eu detesto saber que há uma lâmina de guilhotina pendente sobre minha cabeça.

Como estive ausente do palco dos acontecimentos, prefiro não produzir um relato jornalístico da nova  blitzkrieg. 

Sirvo-me, então, dos principais trechos do depoimento do jornalista e historiador Elio Gaspari, colunista da Folha de S. Paulo e de O Globo, que me pareceu o mais satisfatório da grande imprensa. 

A PM COMEÇOU A BATALHA DA MARIA ANTÔNIA

Quem acompanhou a manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus ao longo dos dois quilômetros que vão do Theatro Municipal à esquina da rua da Consolação com a Maria Antônia pode assegurar: os distúrbios de ontem começaram às 19h10, pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns 20 homens da Tropa de Choque, com suas fardas cinzentas, que, a olho nu, chegaram com esse propósito. Pelo seguinte:

Bala de borracha da PM atingiu esta repórter no olho
Desde as 17h, quando começou a manifestação na escadaria do teatro, podia-se pensar que a cena ocorria em Londres. Só uma hora depois, quando a multidão engordou, os manifestantes fecharam o cruzamento da rua Xavier de Toledo.

Nesse cenário havia uns dez policiais. Nem eles hostilizaram a manifestação, nem foram por ela hostilizados.

Por volta das 18h30 a passeata foi em direção à praça da República. Havia uns poucos grupos de PMs guarnecendo agências bancárias, mais nada. Em nenhum momento foram bloqueados.

Numa das transversais, uns 20 PMs postaram-se na Consolação, tentando fechá-la, mas deixando uma passagem lateral. Ficaram ali menos de dois minutos e se retiraram. Esse grupo de policiais subiu a avenida até a Maria Antônia, caminhando no mesmo sentido da passeata. Parecia Londres.

Voltaram a fechá-la e, de novo, deixaram uma passagem. Tudo o que alguns manifestantes faziam era gritar: "Você é soldado, você também é explorado" ou "Sem violência". Alguns deles colavam cartazes brancos com o rosto do prefeito de São Paulo, "Malddad".

Num átimo, às 19h10, surgiu do nada um grupo de uns 20 PMs da Tropa de Choque, cinzentos, com viseiras e escudos. Formaram um bloco no meio da pista. Ninguém parlamentou. Nenhum megafone mandando a passeata parar. Nenhuma advertência. Nenhum bloqueio, sem disparos, coisa possível em diversos trechos do percurso.

Em menos de um minuto esse núcleo começou a atirar rojões e bombas de gás lacrimogêneo. Chegara-se a Istambul.

Atiravam não só na direção da avenida, como também na transversal. Eram granadas Condor. Uma delas ficou na rua que em 1968 presenciou a pancadaria conhecida como "Batalha da Maria Antônia"...  (por Elio Gaspari)
LEIA TAMBÉM ESTE ARTIGO CORRELATO, COM FOCO MAIS ABRANGENTE:NOVO ESPONTANEÍSMO: PASSE LIVRE, OCCUPY, ESCRACHOS... (clique p/ abrir)

domingo, 20 de maio de 2012

Sempre que estão em evidência no noticiário as atrocidades e execuções perpetradas pelo regime militar, as viúvas da ditadura requentam os mesmíssimos episódios de vítimas dos grupos armados, apostando na desinformação dos brasileiros. Realmente, por aqui poucos sabem que, através dos tempos, TODAS as vezes em que cidadãos comuns pegaram em armas contra tiranias registraram-se erros e acasos infelizes, sem que isto descaracterizasse o fundamental: o fato de uns estarem utilizando a violência DESMEDIDAMENTE para manter o despotismo e outros SELETIVAMENTE para o combater. E a indústria cultural tudo faz para que tal conhecimento continue restrito a minorias. No Brasil, para contrapor às muitas dezenas de episódios chocantes protagonizados pelas bestas-feras da ditadura, a extrema-direita utiliza invariavelmente os casos de Mario Kozel Filho e Alberto Mendes Júnior --lamentáveis, sem dúvida, mas CIRCUNSTANCIAIS, enquanto os carrascos abrigados no aparelho de estado implementaram uma política DELIBERADA de extermínio dos guerrilheiros, repetindo em menor escala a solução final dos nazistas para os judeus. Em março/2008, o jornalista Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo e em outros jornais nos quais sua coluna é publicada, colocou em evidência um terceiro episódio: o do jovem Orlando Lovecchio Filho, que teve a perna amputada depois de atingido pela explosão de uma bomba que a ALN deixou em março/1968 no estacionamento do Conjunto Nacional (av. Paulista), diante do consulado estadunidense em São Paulo. Na ocasião, ficou esclarecido que Gaspari não só atribuíra o atentado à organização errada (culpava a VPR) e às pessoas erradas (nomeou quatro mas duas eram inocentes, tendo uma delas, Dulce Maia, sido vitoriosa na ação que moveu contra o acusador leviano), mas também que Lovecchio PERDEU A PERNA PORQUE A REPRESSÃO DA DITADURA, SUSPEITANDO QUE ELE PUDESSE SER TAMBÉM UM PARTICIPANTE DO ATENTADO, INTERROMPEU O SOCORRO MÉDICO PARA INTERROGÁ-LO E, QUANDO O LIBEROU, HORAS MAIS TARDE, A GANGRENA JÁ SE ESTABELECERA. Lovecchio levou à Justiça um dos verdadeiros autores da ação, Sérgio Ferro, e PERDEU! A derrota judicial se deveu aos relatórios médicos que Ferro apresentou em sua defesa: o primeiro informando que o ferimento de Lovecchio era grave, mas existia possibilidade de recuperação. O segundo, que quando o atendimento foi retomado, horas mais tarde, sua perna já havia gangrenado, o que tornou obrigatória a amputação. Inacreditavelmente, quatro anos mais tarde o jornal da ditabranda, neste domingo (20), bate novamente na mesma tecla e esquece o que ficou evidenciado em 2008: A CRIMINOSA INTERRUPÇÃO DOS CUIDADOS MÉDICOS A UM FERIDO QUE, AINDA QUE FOSSE UM GUERRILHEIRO ATINGIDO PELA PRÓPRIA BOMBA, DEVERIA TER SIDO SOCORRIDO ANTES DE INTERROGADO. A nova manipulação jornalística tem o título de Vítima de bomba também espera receber reparação. E gasta muitas palavras para recapitular a explosão, menos o detalhe fundamental que levou a Justiça a rechaçar a acusação de Lovecchio contra Ferro. Constatem: "...Era 1h30 do dia 19, avenida vazia, lojas fechadas, consulado idem, quando o DKW desceu a rampa do estacionamento. Lovecchio estava com um primo e um amigo de Santos, que o visitavam. Lovecchio estava com um primo e um amigo de Santos, que o visitavam. Um cano tampado com papel kraft. Saída do prédio. Fumacinha. Acabam aí as lembranças. Lovecchio não ouviu nada, não viu clarão. Quando acordou, estava deitado no chão, cercado por pessoas perguntando-lhe isso e aquilo. Achou estranho que a sola do sapato estivesse 'olhando' para ele. Os jovens foram os primeiros suspeitos do atentado. Nos jornais dos dias seguintes, a polícia avisava: a explosão podia ser um 'acidente de trabalho'. Os três do DKW entraram na mira da Polícia do Exército e do Dops. Internado no Hospital das Clínicas, Lovecchio lutou para controlar a infecção na perna dilacerada. Os pais dele recusavam-se a aceitar a hipótese de amputação. 'Mas já estava gangrenando'". Para quem quiser recapitular a polêmica de 2008, eis os artigos que então lancei, aqui, aqui e aqui. A narrativa folhetinesca e choramingas, calibrada para indispor os leitores com os antigos resistentes, admite que Lovecchio foi inicialmente tido como suspeito, omite o restante e ainda registra sem comentar que o atentado se deu em plena madrugada, num estacionamento quase vazio. Ou seja, tanto quanto o carro-bomba lançado contra o QG do II Exército, FOI UMA DESNECESSÁRIA E CONDENÁVEL DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA, MAS O PRÓPRIO HORÁRIO ESCOLHIDO ATESTA QUE HAVIA A INTENÇÃO DE NÃO FERIR NINGUÉM. Ignoro se a ALN reconsiderou a conveniência de tais ações, mas a VPR o fez, no Congresso de Mongaguá, em abril de 1969, do qual participei. E dou meu testemunho: a morte do recruta Kozel era bastante lamentada pelos companheiros de origem militar, que estimavam --e muito!-- os subalternos. Até por quase todos serem antigos sargentos e cabos, acostumados a ZELAR pelos recrutas, um ano depois continuavam cheios de remorsos. Sentimento de pesar compartilhado pelo próprio Lamarca, que ainda não ingressara na VPR quando o atentado ocorreu: embora tivesse chegado a capitão, ele identificava-se mesmo é com a soldadesca, afirmando amiúde que se diferenciava dos outros oficiais por ser filho de sapateiro, e não de famílias burguesas ou de classe média. 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Sempre que estão em evidência no noticiário as atrocidades e execuções perpetradas pelo regime militar, as  viúvas da ditadura  requentam os mesmíssimos episódios de vítimas dos grupos armados, apostando na desinformação dos brasileiros. 

Realmente, por aqui poucos  sabem que, através dos tempos, TODAS as vezes em que cidadãos comuns pegaram em armas contra tiranias registraram-se erros e acasos infelizes, sem que isto descaracterizasse o fundamental: o fato de uns estarem utilizando a violência DESMEDIDAMENTE para manter o despotismo e outros SELETIVAMENTE para o combater. E a indústria cultural tudo faz para que tal conhecimento continue restrito a minorias.

No Brasil, para contrapor às muitas dezenas de episódios chocantes protagonizados pelas bestas-feras da ditadura, a extrema-direita utiliza invariavelmente os casos de Mario Kozel Filho e Alberto Mendes Júnior --lamentáveis, sem dúvida, mas CIRCUNSTANCIAIS, enquanto os carrascos abrigados no aparelho de estado implementaram uma política DELIBERADA de extermínio dos guerrilheiros, repetindo em menor escala a  solução final  dos nazistas para os judeus.

Em março/2008, o jornalista Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo e em outros jornais nos quais sua coluna é publicada, colocou em evidência um terceiro episódio: o do jovem Orlando Lovecchio Filho, que teve a perna amputada depois de atingido pela explosão de uma bomba que a ALN deixou em março/1968 no estacionamento do Conjunto Nacional (av. Paulista), diante do consulado estadunidense em São Paulo.

Na ocasião, ficou esclarecido que Gaspari não só atribuíra o atentado à organização errada (culpava a VPR) e às pessoas erradas (nomeou quatro mas duas eram inocentes, tendo uma delas, Dulce Maia, sido vitoriosa na ação que moveu contra o acusador leviano), mas também que Lovecchio PERDEU A PERNA PORQUE A REPRESSÃO DA DITADURA, SUSPEITANDO QUE ELE PUDESSE SER TAMBÉM UM PARTICIPANTE DO ATENTADO, INTERROMPEU O SOCORRO MÉDICO PARA INTERROGÁ-LO E, QUANDO O LIBEROU, HORAS MAIS TARDE, A GANGRENA JÁ SE ESTABELECERA.

Lovecchio levou à Justiça um dos verdadeiros autores da ação, Sérgio Ferro, e PERDEU! 

A derrota judicial se deveu aos relatórios médicos que Ferro apresentou em sua defesa: o primeiro informando que o ferimento de Lovecchio era grave, mas existia possibilidade de recuperação. O segundo, que quando o atendimento foi retomado, horas mais tarde, sua perna já havia gangrenado, o que tornou obrigatória a amputação.

Inacreditavelmente, quatro anos mais tarde o jornal da  ditabranda, neste domingo (20), bate novamente na mesma tecla e  esquece  o que ficou evidenciado em 2008: A CRIMINOSA INTERRUPÇÃO DOS CUIDADOS MÉDICOS A UM FERIDO QUE, AINDA QUE FOSSE UM GUERRILHEIRO ATINGIDO PELA PRÓPRIA BOMBA, DEVERIA TER SIDO SOCORRIDO ANTES DE INTERROGADO.

A nova manipulação jornalística tem o título de Vítima de bomba também espera receber reparação. E gasta muitas palavras para recapitular a explosão, menos o detalhe fundamental que levou a Justiça a rechaçar a acusação de Lovecchio contra Ferro. Constatem:
"...Era 1h30 do dia 19, avenida vazia, lojas fechadas, consulado idem, quando o DKW desceu a rampa do estacionamento. Lovecchio estava com um primo e um amigo de Santos, que o visitavam. Lovecchio estava com um primo e um amigo de Santos, que o visitavam.

Um cano tampado com papel kraft. Saída do prédio. Fumacinha. Acabam aí as lembranças. Lovecchio não ouviu nada, não viu clarão.

Quando acordou, estava deitado no chão, cercado por pessoas perguntando-lhe isso e aquilo. Achou estranho que a sola do sapato estivesse 'olhando' para ele.

Os jovens foram os primeiros suspeitos do atentado. Nos jornais dos dias seguintes, a polícia avisava: a explosão podia ser um 'acidente de trabalho'. Os três do DKW entraram na mira da Polícia do Exército e do Dops.

Internado no Hospital das Clínicas, Lovecchio lutou para controlar a infecção na perna dilacerada. Os pais dele recusavam-se a aceitar a hipótese de amputação. 'Mas já estava gangrenando'".
Para quem quiser recapitular a polêmica de 2008, eis os artigos que então lancei, aqui, aqui e aqui.

A narrativa folhetinesca e choramingas, calibrada para indispor os leitores com os antigos resistentes, admite que Lovecchio foi inicialmente tido como suspeito, omite o restante e ainda registra sem comentar que o atentado se deu em plena madrugada, num estacionamento quase vazio.

Ou seja, tanto quanto o carro-bomba lançado contra o QG do II Exército, FOI UMA DESNECESSÁRIA E CONDENÁVEL DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA, MAS O PRÓPRIO HORÁRIO ESCOLHIDO ATESTA QUE HAVIA A INTENÇÃO DE NÃO FERIR NINGUÉM.

Ignoro se a ALN reconsiderou a conveniência de tais ações, mas a VPR o fez, no Congresso de Mongaguá, em abril de 1969, do qual participei. E dou meu testemunho: a morte do recruta Kozel era bastante lamentada pelos companheiros de origem militar, que estimavam --e muito!-- os subalternos. Até por quase todos serem antigos sargentos e cabos, acostumados a ZELAR pelos recrutas, um ano depois continuavam cheios de remorsos. 

Sentimento de pesar compartilhado pelo próprio Lamarca, que ainda não ingressara na VPR quando o atentado ocorreu: embora tivesse chegado a capitão, ele identificava-se mesmo é com a soldadesca, afirmando amiúde que se diferenciava dos outros oficiais por ser filho de sapateiro, e não de famílias burguesas ou de classe média.
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