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sexta-feira, 3 de abril de 2015

DILMA CONTINUA SENDO ESPIONADA PELOS EUA - UM DESABAFO!

Acompanhando atentamente o noticiário político desde os meus 18 anos de idade, ainda me surpreendo com a forma desavergonhada como os poderosos manipulam a opinião pública nestes tristes trópicos.

Quando o Fantástico revelou que a presidenta Dilma Rousseff estava sendo espionada pelos EUA em 2013, houve todo aquele alvoroço e ela, para simular uma independência da qual o PT abdicara desde o infame pacto com o capital firmado em 2002 ("deixe-me fingir que exerço o poder político e eu nada farei que desagrade ao poder econômico"), foi chorar as pitangas na ONU, o muro de lamentações ao qual recorrem os impotentes famosos da política.

A delegação dos EUA, em evidente atitude de deboche, não deixou ninguém de alto escalão para escutar a arenga da Dilma. Mas, tal ridicularia foi vendida ao povo brasileiro como um digno desagravo. Me engana que eu gosto. 

Há dois meses, The New York Times confirmou que, como era de se esperar, a Dilma continuava na lista dos dirigentes espionáveis. Desta vez a TV deixou barato e tanto as hostes governistas quanto as oposicionistas evitaram destacar uma notícia que causaria mal-estar nas relações entre Brasil e EUA. Umas porque colocam as conveniências políticas acima de quaisquer princípios; outras porque colocam os negócios acima de quaisquer princípios.

A dignidade nacional ultrajada não conta, nem nunca contará para essa gente sórdida. Mas, se dos vassalos do capital nunca esperamos nada além da amoralidade costumeira, do partido que ajudamos a forjar esperávamos reação bem diferente.

É melancólico constatar que, para o PT, hoje tanto dá engolir o sapo gigantesco que os EUA lhe estão enfiando goela adentro quanto delegar a gestão econômica a um Chicago Boy depois de passar décadas discursando contra o neoliberalismo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O MOMENTO EXIGE UMA REFLEXÃO PROFUNDA

AS CONCLUSÕES A TIRARMOS DO MENSALÃO E DO PETROLÃO

O mensalão existiu? Existiu.

O propinoduto da Petrobrás existiu? Existiu.

Muitos têm dito cobras e lagartos a meu respeito porque, antes como agora, eu me nego a fingir ingenuidade.  

No primeiro caso, ressalvei que todos os partidos influentes se emporcalhavam da mesmíssima maneira e que o rigor contra os réus petistas era inaudito; e também que o Dirceu e o Genoíno não haviam entrado nessa movidos pela ganância, mas sim por acreditarem que era o único jeito de garantirem a governabilidade (ou seja, não visavam ao enriquecimento pessoal, equivocando-se, contudo, quanto ao tipo de serviços que deveriam prestar à causa). 

Mas, tapar o sol com a peneira, isto eu não faço, porque sempre considerei que revolucionários e jornalistas têm um compromisso fundamental com a verdade; o meu eu honro, custe(me) o que custar.

Então, fico satisfeito com o reconhecimento explícito e inequívoco,  por parte de um figurão do petismo, de que quando há fumaça, há fogo.

O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, acaba de afirmar que a corrupção continuará existindo "enquanto houver financiamento empresarial de campanha, e as campanhas tornarem-se o momento de muita gente ganhar dinheiro e de se mobilizarem muitos recursos". 

Para não restar nenhuma  dúvida, ele foi taxativo:
Gilberto Carvalho: sinceridade que fazia falta.  
"Não há quem controle a corrupção enquanto houver esse sistema eleitoral. Isso é com todos os partidos. Não há, infelizmente, nenhuma exceção".
Aplaudo a sinceridade do Gilberto Carvalho. Ele é um dos melhores quadros que restaram no PT depois que tantos idealistas saíram ou foram saídos.

Com idêntica honestidade intelectual, reconheço que ele está inteiramente certo quanto à receita para o sucesso no universo putrefato da política oficial. Os partidos que almejam eleger prefeitos, governadores e presidentes, bem como constituir fortes bancadas legislativas, são mesmo obrigados a, pragmaticamente, adotarem procedimentos ilícitos por baixo do pano.

Só não vejo como o financiamento público das campanhas eleitorais vá resolver o problema, pois os sucessivos escândalos nos revelam que os parlamentares e governantes corrompidos jamais se limitaram a obter o dinheiro sujo necessário para a caça aos votos; continuam se vendendo do primeiro ao último dia dos seus mandatos, já que, para tal escória moral, o céu é o limite. 

E a admissão de que é impossível controlar a corrupção na política oficial me leva à seguinte reflexão: para nós, revolucionários, vale a pena magnificarmos a conquista e manutenção de posições num sistema tão carcomido e tão dependente do (portanto, tutelado pelo) poder econômico?

Depois de quase 12 anos de governos petistas, quanto a revolução brasileira avançou? Nem um milímetro. Algumas benesses foram distribuídas aos mais pobres, algumas conquistas sociais podem ser exibidas, mas, no que realmente conta, o grande capital continua dominando a sociedade e avassalando-a aos seus interesses. Esta é a verdade nua e crua.
O saudoso Plínio colocou o dedo na ferida

Então, eu acredito que seria preferível a esquerda encarar a política oficial apenas como tribuna para amplificar suas denúncias e oportunidade para a acumulação de forças, sem sujar as mãos no afã de ganhar eleições ou no sentido de garantir a aprovação de seus projetos.

É o que, com sua profundidade característica, escreveu o grande Plínio de Arruda Sampaio (para acessar o artigo completo, clique aqui): 
"O capitalismo real, tal como existe no Brasil era do imperialismo total, é incompatível com a democracia e a soberania nacional. A burguesia brasileira depende do imperialismo e sobrevive às custas de reprodução permanente de mecanismos de acumulação primitiva que perpetuam a superexploração do trabalho. Nessas condições, o espaço para mudanças dentro da ordem é praticamente nulo. 
A 'democracia real', tal como ela existe no Brasil, não abre espaço para transformação social. Ela funciona como mero ritual eleitoral que operacionaliza a alternância no poder entre as diferentes facções da burguesia, dando um verniz de legitimidade a um padrão de dominação que é, na sua essência, profunda e intrinsecamente antidemocrático.  Para sair do impasse em que se encontra, o movimento social terá de radicalizar a crítica ao capitalismo e redefinir o modo de conceber a complexa dialética entre reforma e revolução".
Então, acrescento eu, inexistindo espaço para mudanças dentro da ordem, cabe-nos priorizar nosso maior (verdadeiramente único) patrimônio: a capacidade de inspiramos esperança ao povo. Se nos deixarmos desmoralizar, incidindo nas maracutaias praticadas "sem nenhuma exceção" pelos partidos convencionais, o povo não acreditará em nós nem nos acompanhará quando formos "radicalizar a crítica ao capitalismo", único caminho para transformarmos verdadeiramente a sociedade. 

É simples assim.

AS PERSPECTIVAS DEPOIS DO VENDAVAL

Até quando se manipularão eleições?
Engraçado, mesmo os mais prejudicados com o vazamento do que Paulo Roberto Costa teria declarado à Polícia Federal estão discutindo e rebatendo as informações imprecisas que a imprensa publica, ao invés de adotarem a única posição correta num caso desses: exigirem que as autoridades apurem as ilicitudes mediante as quais um depoimento resguardado por segredo de Justiça inundou o noticiário, negando-se a comentar acusações das quais nenhum deles tomou conhecimento por vias confiáveis (as possibilidades de manipulação saltam aos olhos!).

É lamentável que uma prática que infringe a lei tenha se tornado habitual e não seja contestada sequer por suas vítimas. Estas raciocinam da seguinte maneira: "Se eu não refutar a(s) acusação(ões), os eleitores vão concluir que é tudo verdade. Então, tenho de dizer qualquer coisa". E, com isto, coonestam essas armações ilimitadas da veja & cia.

Há muita disparidade entre o que cada veículo importante coloca na boca do diretor da Petrobrás, tipo quantos e quem ele teria dedado, qual a gravidade das imputações em cada caso, etc. Manifestar-se no escuro é pedir para falar bobagem e depois cair no ridículo. Nossos políticos são uns pobres diabos, firmes como geléia. 

De algo, contudo, podemos ter certeza: Costa está depondo e as tais 42 horas de gravação existem. Como as coisas chegaram a este ponto?

Minha impressão é de que os petistas, para garantirem a malfadada governabilidade da maneira mais fácil (poderiam, ao invés de comprarem apoios, afrontarem corajosamente a tradicional podridão da política brasileira, pois é isto que o povo deles esperava), servem-se de personagens escusos, que intimamente desprezam, como Marcos Valério e Costa. 
Na recessão anunciada,  convirá termos um pai dos pobres...

Quando a m... fede, tratam de salvar os seus, aqueles que se emporcalharam pela causa, e deixam que os movidos pela ganância se danem.

Evidentemente, os comparsas desprezados não apreciam ser tratados desta forma. Valério refugou demais e deixou passar o momento exato de obter favores da Justiça em troca de dar o serviço. Costa percebeu que seria igualmente abandonado à própria sorte (talvez seja melhor dizer azar, pois o esperava uma cana braba!), então não hesitou: vendeu sua mercadoria no momento em que havia mais compradores interessados. Nada bobo.

Mesmo que o escândalo respingue um pouco no falecido Eduardo Campos e no PSB, é insuficiente para derrubar Marina Silva, a menos que surja alguma acusação específica contra ela. Já Dilma Rousseff, evidentemente próxima do escândalo (chegou a ser ministra das Minas e Energia, continuou sempre interessada nos assuntos da Petrobrás e presidiu seu Conselho de Administração) vai ser alvejada a torto e a direito, provável pá de cal numa candidatura já combalida.

Torço para que os grãos petistas enxerguem o óbvio: insistirem com Dilma será suicídio, enquanto que o carisma de Lula poderá, talvez, evitar a derrota anunciada. Ou convencem a criatura a renunciar para o criador assumir e tentar salvar a pátria, ou podem começar desde já a empacotar os pertences, pois tudo leva a crer que o Palácio do Planalto estará sob nova direção a partir de janeiro.
...ou uma santa dos seringueiros inspirando o povo.

Ignoro se o Lula quererá mesmo estar à frente do governo, responsabilizando-se por decisões impopulares, durante a aguda crise econômica que despencará sobre nós em 2015 e sabe-se lá até quando vai durar. Mas, para a democracia brasileira, será melhor se o PT tentar a sorte com o que tem de melhor. Aí saberemos inequivocamente se o povo ainda quer Lula, ou está preferindo trilhar um novo caminho; se é o PT que está sendo repudiado, ou apenas Dilma. 

Para pilotar a nave Brasil durante os tempos bicudos da recessão, precisaremos de um comandante que seja capaz de inspirar as massas, mantendo viva a esperança em dias melhores: ou o Lula pai dos pobres voltando nos braços do povo, ou a santa Marina dos seringueiros (sem a sombra do Lula, pois o teria derrotado na eleição). Daí meus sinceros votos de que o tira-teima entre os únicos ícones restantes aconteça no mês que vem.

Não consigo imaginar uma Dilma Rousseff ou um Aécio neves pedindo aos brasileiros "sangue, suor, trabalho e lágrimas", sem provocar uma explosão de gargalhadas ou uma enxurrada de palavrões.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"SÓ ACREDITO NO EMPREGO DA VIOLÊNCIA EM CIRCUNSTÂNCIAS MUITO ESPECIAIS"

A mensagem que recebi do companheiro Plínio de Arruda Sampaio, em resposta ao meu artigo Nossas melhores armas são o espírito de justiça e a superioridade moral, foi exatamente a que dele esperava.

Nunca duvidei de suas convicções, mas temia que o artigo publicado na Folha de S. Paulo (ver íntegra aqui) servisse como estímulo a uma radicalização que, neste momento, só interessa à direita golpista. Houve, inclusive, quem o divulgasse euforicamente nas redes sociais, destacando e aplaudindo o apelo às armas.

Então, é-me muito gratificante ter proporcionado ao nosso imprescindível Plínio a oportunidade de esclarecer melhor sua posição.

Segue a íntegra da mensagem:

"Prezado Celso

Pelo respeito que tenho pela sua militância, venho dar-lhe uma explicação a respeito do artigo sobre o massacre do Pinheirinho.

A proposta de emprego da violência não se referia aos ocupantes daquela área mas à necessidade de que a massa trabalhadora estivesse preparada para enfrentar a burguesia.

Não ficou claro e deu essa impressão equivocada, que causou estranheza a você, à Marietta e, imagino, a muito mais gente.

Na verdade, cometi o erro de tratar de um assunto complexo como este sem o espaço requerido para uma exposição adequada. Até porque, defensor, como sou, do socialismo democrático, só acredito no emprego da violência em circunstancias muito especiais e qualificadas.

Quero agradecer-lhe pelos comentários, que me fizeram ver o erro cometido, e agradecer as elogiosas referencias à minha pessoa.

Seu amigo e admirador, Plinio"

domingo, 29 de janeiro de 2012

NOSSAS MELHORES ARMAS SÃO O ESPÍRITO DE JUSTIÇA E A SUPERIORIDADE MORAL

Convidado pela Folha de S. Paulo a expressar a posição contrária à  blietzkrieg sobre Pinheirinho, como contraponto à defesa do cumprimento cego de decisões errôneas e desumanas da Justiça feita por um tal de João Antonio Wiegerinck, o grande Plínio de Arruda Sampaio produziu uma análise corretíssima da doença, mas receitou um remédio letal para o paciente que pretende curar e para muitos mais: a defesa das ocupações pela via armada (ver íntegra aqui). Eis sua argumentação:
"Pacífica, despolitizada e sem organização, essa população tem aceitado a situação intolerável sem recorrer à violência. Até quando?

Isso vai continuar acontecendo enquanto os partidos de esquerda deixarem de cumprir seu papel de conscientizar e organizar essa massa, para que ela resista a esses ataques de armas na mão.

Na hora em que isto for uma realidade, não haverá violência, porque a consciência dessa realidade será suficiente para manter os cassetetes na cintura".
A revolta do Plínio é pra lá de justificada e compreensível. Seu impecável relato dos acontecimentos mostra mesmo uma situação inaceitável numa democracia. Mas, se a esquerda conscientizar e organizar a massa das ocupações, para que resista aos jagunços fardados com armas na mão, vai se tornar ela própria parte do confronto.

Aí, as hipóteses serão apenas duas:
"Há soldados armados, amados ou não,
quase todos perdidos de armas na mão"
  • organizando tão somente os ocupantes, não os explorados e excluídos em geral, as lições do passado apontam para um quadro bem diferente do sonhado por Plínio, com os cassetetes permanecendo, sim, na cintura, mas porque substituídos por fuzis e lança-chamas --ou seja, a esquerda e os ocupantes acabariam esmagados pelos efetivos a serviço da propriedade, cujo poder de fogo, claro, é infinitamente superior;
  • se a esquerda partir para a organização dos trabalhadores e excluídos em geral, no sentido de respaldarem a resistência de armas na mão aos crimes consentidos pelo Executivo e avalizados pelo Judiciário (como foi o caso do Pinheirinho), a radicalização de parte a parte inevitavelmente desembocará numa luta armada como a que foi travada contra a ditadura de 1964/85.
Nada indica que o desfecho seria diferente hoje.

Daquela vez, estavam bloqueados todos os caminhos democrátivos para a contestação do regime implantado mediante golpe e sustentado por meio do terrorismo de estado. Entre resignarmo-nos à lei do mais forte ou lutarmos contra o arbítrio, alguns milhares fizemos a opção mais digna, pegando em armas a despeito de estarmos plenamente conscientes do quanto a correlação de forças nos era desfavorável.

Fomos heróis. Fomos mártires. Fomos massacrados.

"Nos quartéis lhes ensinam antigas lições
de morrer pela pátria e viver sem razões"
Atualmente, embora a democracia formal sirva como biombo para a ditadura do capital, ela pelo menos nos garante a possibilidade de tocarmos os corações e esclarecermos as mentes. Graças, principalmente, à quebra do monopólio da formação de opinião que a internet nos possibilitou, estamos pouco a pouco, com trabalho de formiguinha, estimulando em novos contingentes o desenvolvimento de uma consciência crítica e antagônica ao capitalismo. Ampliamos e rejuvenescemos nossos efetivos a olhos vistos.

Já predominamos na web e isto nos deu fôlego suficiente para vitórias antes improváveis, como a que obtivemos no Caso Battisti e ao rechaçarmos o atentado à liberdade de expressão perpetrado em São Paulo, quando a Marcha da Maconha foi reprimida.

Mas, a mídia a serviço das más causas ainda consegue fazer com que 82% dos paulistanos aprovem uma resposta policial para um problema social, como foi o caso na cracolândia. E isto apesar das evidências gritantes de que, além de desumana, a operação fracassou rotundamente, a ponto de a própria Polícia Militar admitir que os usuários de drogas foram apenas esparramados por, pelo menos, 27 outros pontos da cidade (ver aqui). 

Então, com todo o respeito que Plínio de Arruda Sampaio, com sua exemplar trajetória de lutas, merece dos que travamos o bom combate, desta vez ele foi traído pela emoção. A análise serena nos recomenda que:
  • continuemos levando sempre em conta a correlação de forças --ou seja, que não radicalizemos as lutas além de nossa capacidade real;
  • não forneçamos trunfos e pretextos para a direita golpista que mostrou suas garras na USP, na cracolândia e no Pinheirinho;
  • prossigamos disseminando nossas idéias em escala cada vez mais ampla e resistindo às investidas autoritárias com as armas do espírito de justiça e da superioridade moral, não com armas de fogo.
O que faltou em Pinheirinho não foram necessariamente armamentos. Se, posicionados ao lado dos coitadezas da ocupação, lá estivessem, digamos, 50 mil cidadãos pacíficos e determinados, provavelmente isto teria sido "suficiente para manter os cassetetes na cintura".

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