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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O SONHO NUNCA ACABA

Para quem tem uma longa estrada atrás de si, o aniversário convida à reflexão, a fazer um inventário dos sonhos concretizados, pendentes e desfeitos.

Mais ainda quando, como é o meu caso, ocorre exatamente na véspera de um dia decisivo: no domingo saberei se o meu último sonho terá sido, parafraseando meu velho amigo Raulzito, um sonho que sonhei só ou um sonho que se sonha junto e vira realidade.

Como estou desde os 17 anos empurrando pedras para o topo da montanha e várias vezes elas despencaram (algumas de forma extremamente sofrida, como quando tantos  imprescindíveis  se imolaram numa guerra impossível de ser vencida), não encaro uma eventual derrota como tragédia. O importante é lutarmos pelos objetivos corretos, de forma íntegra e dando o melhor de nós.

Até porque os combatentes da justiça social e da liberdade perseguimos um ideal milenar, sem que a vitória até agora nos sorrisse. Aproximamo-nos e distanciamo-nos dela, apenas. A humanidade irmanada na priorização do bem comum e do pleno atendimento das necessidades humanas continua existindo apenas na imaginação de poetas como John Lennon, de profetas como Karl Marx e de bravos guerreiros como Che Guevara.

Não existe, contudo, nada de mais nobre a que dedicarmos nossa existência. Quem trava o bom combate e o faz como bom combatente é o sal da Terra, o arauto da solidariedade e o portador da esperança.

Os que nos propomos a desempenhar tal papel não nascemos prontos. Tentamos construirmo-nos como homens novos ao longo da jornada, conscientes de que as pessoas estarão sempre atentas, avaliando nossos sonhos pelo que fizermos. Ninguém sonhará junto se nós mesmos não nos mostrarmos à altura dos ideais que professamos.

Então, refleti muito antes desta incursão tardia pela política convencional. Estava consciente de que me exporia à incompreensão de alguns e à desqualificação por parte de outros; e que a mentalidade clubística ainda predominante na esquerda me faria, deixando de ser independente, perder espaços e tribunas na internet.

Havia, no entanto, valores mais importante a considerar do que meus ônus pessoais.

Desde 2007 eu vinha denunciando os balões de ensaio fascistizantes na capital paulista. Com os tucanos e seus aliados monopolizando os governos estadual e municipal, a cidade se torna, cada vez mais, o laboratório no qual se testam as fórmulas para um novo totalitarismo, aferindo-se a resistência da sociedade ao estado policial.

A escalada autoritária veio intensificando-se de ano a ano:
  • as  invasões bárbaras  da USP começaram com o ingresso das mais truculentas tropas de choque da Polícia Militar em algumas situações e acabaram com a ocupação permanente da Cidade Universitária, evocando os piores tempos da ditadura militar;
  • a repressão da Marcha da Maconha também representou uma volta àquele passado infame em que se atentava impunemente contra a liberdade de expressão e de manifestação;
  • a forma como dependentes químicos foram escorraçados da cracolândia a pontapés fez lembrar o próprio nazismo;
  • na desocupação do Pinheirinho, chegou-se ao absurdo de desconsiderar uma ordem judicial para cumprir outra e de sequestrar um idoso para que a imprensa não constatasse seu estado lastimável após o espancamento sofrido (com a agravante de que ele faleceria três semanas depois);
  • a prática, adotada pela PM sob as vistas grossas do governo do Estado, de maquilar execuções a sangue-frio como mortes decorrentes de resistência à prisão tem merecido repúdio universal;
  • a designação de oficiais da reserva da PM para gerirem 31 das 30 subprefeituras paulistanas implica a adoção da mentalidade policial no trato dos problemas sociais e para fins de controle político, com os excessos intimidatórios já sendo notados na periferia e bairros pobres (a vandalização do Sarau do Binho é um exemplo).
A DECISÃO DE LEVAR A LUTA AO CAMPO DO INIMIGO

A influência exercida pela web no Caso Battisti só se repetiu no episódio da proibição da Marcha da Maconha, quando os saudosos do arbítrio foram obrigados a recuar. Mas, mostrou-se insuficiente nos demais casos, principalmente o do Pinheirinho, quando havia gritantes motivo para se exigir o impeachment do governador Alckmin, mas nem sequer foi tentada uma mobilização neste sentido (embora eu tenha lançado sucessivas exortações e estimulado de todas as maneiras tal iniciativa).

Então, levando em conta o menor impacto atual das redes sociais em batalhas importantíssimas e o fato de estar sendo boicotado pela grande imprensa (que, macartista como nunca, fechou-se para mim como profissional e nem sequer permite que meu nome seja citado como personagem histórico e participante de acontecimentos atuais), decidi abrir uma segunda frente, levando a luta para o campo do inimigo.

Qualquer que seja o resultado do pleito, não me arrependo. Era o que havia a ser feito. Quando portas se fecham, os revolucionários temos de abrir outras, jamais deixando que nos reduzam à impotência. Cumpri o meu papel.

Também acredito ter contribuído para aclarar noções sobre como deve comportar-se um candidato de esquerda em processos eleitorais que, no nosso caso, devem ser encarados sempre como oportunidades táticas para acumulação de forças e não como objetivos estratégicos.

Por mais que este conceito seja tido como axiomático em termos teóricos, a compulsão de vencer a qualquer preço acaba contaminando muitos companheiros, que incorporam acriticamente as práticas das campanhas dos candidatos do sistema, em todos os sentidos:
  • buscando evidenciar-se melhor do que eles na gestão das miudezas paroquiais, quando nossas campanhas devem ser sempre ideológicas, por princípio e até por eficácia (correndo na mesma faixa dos direitistas e reformistas, sempre perderemos para seus recursos e sua máquina de comunicação infinitamente superiores);
  • personalizando as campanhas como eles fazem, o que vem ao encontro da intenção da burguesia e sua indústria cultural, de desideologizar as eleições, tornando-as semelhantes à escolha de ítens para consumo;
  • e até repetindo a prática repulsiva de convidar os eleitores a votarem em alguém apenas por ser filhote deste ou daquele, e não por ter as melhores aptidões e antecedentes na luta revolucionária.
Do meu pai herdei o exemplo, os princípios morais e a educação que ele, com tanto sacrifício me proporcionou. Nunca precisei de outros pais, nem os procurei. Desde os 17 anos venho escrevendo minha própria história.

E é ela que deve justificar, ou não, a escolha dos eleitores e o apoio dos companheiros que ainda venham a contribuir para uma arrancada final.

No fundo, trata-se de mais uma luta de Davi contra Golias. Mesmo quando todas as carta parecem estar todas marcadas contra nós, temos de manter o ânimo e lutar até o fim. Às vezes, como no Caso Battisti, o aparentemente impossível acontece.

terça-feira, 29 de maio de 2012

DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS É PRIORIDADE MÁXIMA EM SP

Cinco anos se passaram desde que, tentando enfiar goela adentro da comunidade uspiana quatro decretos autoritários, o então governador José Serra deu o pontapé inicial numa escalada de arbitrariedades que foi intensificando-se cada vez mais, até chegarmos às recentes e gravíssimas violações dos direitos humanos em São Paulo.

Então, ao promover um seminário sobre os DH em Sampa, o PSOL almeja algo bem maior do que o aprimoramento do seu programa, visando futuras disputas eleitorais: quer estimular os outros agrupamentos verdadeiramente de esquerda a também priorizarem a luta contra a barbárie e o retrocesso, inscrevendo-a em suas diretrizes e abrindo-se a iniciativas de união das forças progressistas para o enfrentamento do inimigo comum.


Há várias formas de avaliarmos tais episódios: podemos, p. ex., vê-los como consequência dos excessos e provocações dos remanescentes da ditadura militar até hoje enquistados na máquina governamental; como nova demonstração do despreparo de algumas autoridades para o exercício de suas funções numa democracia; e até como balões de ensaio golpistas, para se testar a resistência da sociedade brasileira ao restabelecimento do estado policial.

Todos sabem que eu fui o primeiro a alertar para a última possibilidade. Mas, qualquer que seja o motivo, NÃO PODEMOS, DE MANEIRA NENHUMA, CRUZAR OS BRAÇOS DIANTE DO QUE ESTÁ OCORRENDO! Tanto quanto nos  anos de chumbo, a defesa intransigente dos direitos humanos se tornou um imperativo para os militantes de esquerda em SP. 

Daí eu pedir a contribuição de todos os companheiros, no sentido de começarmos a construir a reação organizada do CAMPO DA ESQUERDA ao avanço da DIREITA SELVAGEM na cidade e no estado de São Paulo.


COMO DETERMOS A ESCALADA DE GRAVES
VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS EM SP?

O PSOL está abrindo a discussão sobre os problemas candentes da atualidade brasileira, em seminários que servem para a identificação de propostas a serem incorporadas ao programa do partido em relação a questões relacionadas à educação, saúde, meio ambiente, juventude, LGBT, etc.

Neste sentido, vai promover amanhã (4a. feira, 30), a partir das 19 horas, o Seminário de Programa: Direitos Humanos, que terá lugar no Sinsprev (rua Antonio de Godoy, 88, 2o. andar, ao lado do Largo do Paissandu, no centro velho de São Paulo).

Os debatedores já confirmados são o militante histórico da Anistia Internacional Carlos Lungarzo e o jornalista e ex-preso político Celso Lungaretti, que tiveram participação destacada na luta pela liberdade de Cesare Battisti; e Fabiana Leibl, da ONG Conectas Direitos Humanos.

Estão convidados não só os filiados ao PSOL, mas os militantes de DH e todos os interessados em darem uma contribuição positiva para o aclaramento e aprofundamento de assuntos que vão desde a persistência da tortura policial contra presos comuns até hoje e as condições de vida e de trabalho desumanas impostas a grande parte da população, até a escalada autoritária em curso na cidade e no Estado (repressão da Marcha da Maconha, faxina social na Cracolândia, barbárie no Pinheirinho, ocupação militar da USP, etc.).

OUTROS TEXTOS RECENTES (clique p/ abrir):
A "FOLHA" VIRA PORTA-VOZ DO TERNUMA E QUASE NINGUÉM DENUNCIA?!
A "FOLHA" AGORA É A VERSÃO IMPRESSA DO TERNUMA
O NOVO XOU (ME ENGANA QUE EU GOSTO)


segunda-feira, 23 de abril de 2012

SOBRE O ESCRACHO, O PIG, O MACARTISMO E OUTROS TEMAS

Surpreendeu-me encontrar na minha caixa postal uma mensagem de Francisco Foot Hardman, escritor, ensaísta, crítico literário e professor de Teoria e História Literária da Unicamp.

Ele me recomenda o seu artigo publicado neste domingo (22) em O Estado de S. Paulo, O poder do escracho, por ser afim dos meus escritos sobre o mesmo tema.

Corretíssimo. Tem mesmo tudo a ver comigo, tanto que o recomendo enfaticamente (vide íntegra aqui). Eis uma amostra:
"Os espectros dos desaparecidos são o GPS real que guia essas alegres levas do Levante. Boa parte das centenas de jovens e representantes de familiares de desaparecidos da ditadura que se espalharam em manifestações políticas contra o esquecimento e a impunidade de torturadores e outros responsáveis pelas ações do aparato de terrorismo do Estado durante a ditadura militar em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Fortaleza, não viveu aqueles anos. 
Isso é tanto mais notável quanto virou idéia fixa repetir que o Brasil é o país da desmemória. Quantos Harry Shibatas precisarão ser ainda desmascarados? Porque é certo que este médico-legista coqueluche da 'legalização' dos extermínios praticados por agentes da Oban e do Deops, não foi caso único no amplo aparato do terror instalado pelos serviços da inteligência do regime militar.
Quantos mais foram cúmplices dos perpetradores, administrando a ciência médica a serviço da 'otimização' das dosagens de tortura? Quantos juramentos de Hipócrates rasgados sem nenhuma punição dos conselhos regionais ou nacional de medicina?
O escracho é uma manifestação legítima e eficaz. Comprovou-se isso na Argentina, no Chile e no Uruguai...
...É, na verdade, um livre momento de expressão e desabafo da sociedade civil organizada. A informação precisa e atualizada, a rapidez e leveza de sua estrutura de mobilização, em que a internet joga, como em outros exemplos recentes de democracia direta, um papel decisivo, bem como a imaginação criadora de suas variadas formas, esses são seus ingredientes de sucesso".
DESINFORMAÇÃO E LISTAS NEGRAS

Meu estranhamento se deveu a serem raros os  acolhidos na grande imprensa  que têm coragem de assumir vínculo ou identificação com os  boicotados pela grande imprensa: nós, os que só conseguimos divulgar nossos textos na internet. Quanto muito, repetem nossas teses e argumentações sem citarem a fonte.

O PIG e a web cada vez mais se tornam dois planetas diferentes e, na maioria dos casos, hostis. O primeiro ignora a segunda. A segunda critica acerbamente (quase sempre com justos motivos) o que faz o primeiro.

Para quem escreve com o objetivo de influir nos acontecimentos e não por deleite ou vaidade, é uma limitação terrível. 

Duelando em igualdade de condições com os inquisidores no território livre da internet, conseguimos convencer as minorias conscientes de que seria uma ignomínia extraditarmos Cesare Battisti para cumprir a sentença farsesca de um tribunal de cartas marcadas, que funcionou sob uma legislação típica de ditaduras (passados os  anos de chumbo, a escabrosa lei instituída exclusivamente contra os ultraesquerdistas foi revogada, mas não se anularam as condenações dela decorrentes!). 

Um dos principais coadjuvantes da ofensiva italiana, juiz aposentado que escreve na CartaCapital, chegou a desertar do debate que iniciara comigo numa tribuna virtual, com os comentários postados pelos internautas quase todos me apoiando.

Então, era extremamente frustrante assistirmos, impotentes, à mídia desinformando o cidadão comum, a  maioria silenciosa cuja cabeça ela faz, sem a mínima consideração pelas boas práticas jornalísticas, como a de publicar contestações relevantes do  outro lado. Se nos dessem o mínimo de espaço, pulverizaríamos um por um os Minos Cartas da vida --que, sabiamente, esquivavam-se de polemizar conosco (caso do dito cujo, desafiado "n" vezes pelo Rui Martins, pelo Carlos Lungarzo e por mim).

O Lungarzo e eu chegamos a enviar para mais de mil jornalistas o oferecimento de provas incontestáveis de que Battisti tinha sido defendido no segundo julgamento por advogados que não constituiu, munidos de procurações falsificadas. E, como quem desmascarara a tramóia havia sido a Fred Vargas (principal novelista policial da França, tida como uma nova Agatha Christie ou Patricia Highsmith), incluímos um brinde: ela se dispunha a conceder, complementarmente, uma entrevista exclusiva. Um presentão para qualquer profissional de imprensa. NENHUM(A) se interessou.

Vários meses depois, o correspondente do  Estadão  na França ouviu o mesmíssimo relato da boca da Fred e mandou a notícia de lá. Foi, afinal, publicada.

Será que aqueles mais de mil jornalistas tinham desaprendido o ofício? Ou o bloqueio contra qualquer conteúdo contrário à corrente dominante (pró linchamento) era total nas editorias de Política Nacional, de forma que só poderia ser driblado numa menos  estreitamente vigiada, como a do noticiário internacional?

 Agora mesmo, teve grande destaque a acusação do digno ministro Joaquim Barbosa a um atrabiliário medievalista que nunca mereceu integrar o Supremo Tribunal Federal e finalmente pendurou a toga, de manipular um julgamento da Lei da Ficha Limpa.

Aproveitando a deixa, divulguei amplamente um crime adicional --muito pior!-- cometido pelo mesmo indivíduo, o de manter o escritor Cesare Battisti sequestrado depois do seu caso já estar decidido, na esperança de induzir seus colegas a uma virada de mesa legal.

Com palavras mais veementes, apenas repeti o que haviam afirmado o grande Dalmo de Abreu Dallari e o ministro mais articulado do Supremo, Marco Aurélio Mello: a prisão de Battisti deveria ter sido relaxada tão logo o Diário Oficial publicou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornando-se, a partir daquele instante, ilegal. E a ilegalidade durou mais de cinco meses, ao cabo dos quais o próprio STF reconheceu que nada mais havia a se discutir, só lhe cabendo cumprir a decisão que delegara a Lula.

Por que não responsabilizarmos por tal aberração o linchador que presidia o Supremo (e também o relator Gilmar Mendes)? Por que a grande imprensa deu tanto destaque a uma acusação difícil de se provar e nenhum a uma indiscutível e irrefutável?

Por dois motivos principais:
  • para não dar a mão à palmatória quanto às muitas arbitrariedades cometidas contra Battisti que ela tinha omitido ou minimizado anteriormente; e
  • para não levantar a bola de jornalistas revolucionários (agiria da mesmíssima forma se a acusação proviesse do Ivan Seixas, Laerte Braga, Rui Martins, Alípio Freire, Altamiro Borges, etc.).
OS JOVENS VOLTAM ÀS RUAS

Mas, repito, tal macartismo velado não impede que jornalistas e outros autores que têm espaços fixos na mídia inspirem-se em nosso trabalho e o reconheçam.

Por mais exasperante que seja a situação de confinado à web, eu me consolo com a lembrança dos anos de intimidação e censura: tudo era bem pior.

E, tanto quanto naqueles tempos sombrios, continuam verdadeiros os versos de Sérgio Ricardo: "cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo".

O deserto continua causticante, mas as sementes já começam a frutificar:
  • os jovens foram às ruas lutar contra o autoritarismo redivivo nos episódios da proibição da Marcha da Maconha, da ocupação fascistóide da USP, da blitzkrieg na Cracolândia e da barbárie no Pinheirinho;
  • fizeram passeatas contra a ganância e a corrupção;
  • protestaram contra a ilegalidade cometida pelos saudosos do arbítrio ao exaltarem os horrores ditatoriais (com a conivência de autoridades que ignoraram olimpicamente seu compromisso com a democracia);
  • e aplicaram a antigos carrascos e serviçais do terrorismo de estado a única punição possível (moral) face à tibieza dos Poderes constituídos, aos quais caberia aplicar-lhes penas compatíveis com a gravidade dos crimes hediondos que cometeram.
Foram manifestações que nos lavaram a alma e revigoraram nosso ânimo!

Nós, os que marchamos contra a corrente da desumanização, continuaremos travando o bom combate na internet e nas ruas, sem nunca desistirmos de invadir as praias do sistema e com a certeza de que nossos textos são as sementes de um futuro igualitário e livre.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SÃO PAULO É O GRANDE FOCO DIREITISTA DO PAÍS

Redatores do  Estadão  no tempo de Olavo Bilac (mão no queixo). As idéias continuam as mesmas
Segundo o Instituto Verificador de Circulação, O Estado de S. Paulo é o jornal mais vendido na capital paulista, na Grande São Paulo e no Estado como um todo, enquanto a Folha de S. Paulo só o supera no interior paulista, mas mantém a liderança nacional por circular mais nos outros estados.

Tais dados são perfeitamente coerentes com a realidade política paulista e paulistana. 

Estadão  é o veículo de uma direita ideológica que remonta à aristocracia cafeeira. Conservador por excelência, foi peça importante na conspiração para a derrubada do presidente constitucional João Goulart.

Isto conflitava um pouco com o papel que o jornal desempenhou na ditadura getulista, quando esteve até sob intervenção. Então, depois de, segundo alegou, ter ajudado  a  salvar o País da ameaça comunista, passou a pregar insistentemente a devolução do poder aos civis, uma vez que a  intervenção cirúrgica  já teria  saneado as instituições.

Dondocas do Cansei! em SP:
adesão mínima frustrou planos
Ou seja, as cassações de mandatos, a extinção arbitrária de partidos e entidades, os expurgos e mudanças impostas pela força, as prisões e torturas, tudo isso já teria limpado o terreno para a burguesia poder voltar a exibir sua face civilizada...

Ressalvas feitas, a resistência dos jornais do Grupo Estado à censura e ao terrorismo de estado merece respeito. Afora o trivial que todos destacam (as poesias de Camões que o  Estadão  colocava no espaço de trechos ou de notícias inteiras censuradas, bem como as receitas culinárias que tinham a mesma serventia no Jornal da Tarde), houve dois episódios em que seus diretores mostraram, inclusive, coragem pessoal:
  • quando mandaram os seguranças impedirem o DOI-Codi de invadir a redação para prender um jornalista, tendo o Mesquita de plantão dito a frase célebre de que "ele pode ser comunista lá fora, mas aqui dentro é meu funcionário" (depois, abrigou-o no próprio sítio);
  • quando, depois da morte de Vladimir Herzog, decidiram acompanhar os jornalistas da casa arrolados no mesmo inquérito sempre que chamados a depor no DOI-Codi, a fim de garantirem pessoalmente sua integridade física.
Mas, embora repudie os excessos no exercício do poder burguês, o Estadão é o jornal brasileiro mais afinado com a sua essência --ao contrário dos  comerciantes  da Folha de S. Paulo, cuja postura oscila oportunisticamente ao sabor dos ventos políticos, ora cedendo viaturas para o serviço sujo da repressão, ora ajudando os Golberys da vida a recambiarem o País para a civilização... 

A supremacia do   Estadão  em São Paulo é consistente com o fato de ser um Estado sob governos tucanos desde 1995; e na cidade de São Paulo, com o de ela, desde a redemocratização, haver tido várias gestões direitistas e somente duas, digamos,  desalinhadas  (as de Luíza Erundina e Marta Suplicy).  

Também faz todo sentido que São Paulo esteja sendo o laboratório de testes das novas fórmulas golpistas, com a franca adoção de respostas policiais para os problemas sociais servindo para aferir a resistência que a fascistização provocará. 
SP, 1964: marcha das famílias abastadas
preparou o terreno para o golpe militar.

Ainda bem que a operação desastrada na cracolândia e a barbárie no Pinheirinho despertaram uma opinião pública que parecia anestesiada quando da invasão da USP por brucutus e da fixação de uma tropa de ocupação em pleno campus universitário (suprema heresia!).

Mas, a cena paulista deve continuar sendo observada com muita atenção pelos verdadeiros democratas. Pois, qualquer atentado às instituições, para quebrar a continuidade de administrações petistas (bem toleradas pelos EUA e pelo grande capital, já que mantiveram seus privilégios, mas não pelas  viúvas da ditadura  e por alguns setores setores extremados da burguesia), começará, necessariamente, por São Paulo.

Vale lembrar: foi em São Paulo que o Cansei! tentou organizar uma nova (mas frustrada...) Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

E é em São Paulo que a truculência policial volta a ser exercida exatamente como nos tempos da ditadura militar, por efetivos que até hoje cultivam descaradamente a nostalgia do arbítrio.

Obs.: na história de São Paulo também há capítulos edificantes, como a luta contra o despotismo em 1932, o movimento estudantil de 1968, as diretas-já e o fora Collor!. Mas, parecem ter sido episódios fugazes, meras exceções, enquanto o conservadorismo e o reacionarismo dão a tônica.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

REGIME QUE PRODUZ DEZENAS DE "SUICIDADOS" É DITABRANDA?!

A Folha de S. Paulo deste domingo (5) traz longa reportagem sobre a encenação de suicídio do jornalista Vladimir Herzog, tendo como  gancho  o fotógrafo que a ditadura militar utilizou para fazer a imagem famosa (ver íntegra aqui).

A rigor, não conta nada de novo para quem acompanhou os acontecimentos ou interessou-se pelo que vem sendo noticiado desde 1975 (vide aqui, p. ex., meu resumo e análise do Caso Herzog).

Mas, é uma matéria que vale a pena mostrarmos às novas gerações, dando-lhes uma noção de como a vida de um homem vale pouco, quase nada, num regime totalitário.

E, claro, de como a ditadura militar era tudo, menos a  ditabranda  que o próprio jornal apregoou, num dos editoriais mais infelizes de sua história. Como se pode considerar branda uma ditadura da qual Herzog foi, cronologicamente, o 39º  suicidado?!

Só naquele ano de 1975 ocorreram outros 13 assassinatos maquilados em suicídios, afora as igualmente forjadas mortes  ao resistir à prisão (que até hoje são fartamente utilizadas pelas polícias militarizados do País inteiro como justificativa para o extermínio de marginais).

Curioso é que, mesmo sem ter aberto o bico sobre esta e muitas outras farsas nas quais esteve envolvido como coadjuvante, o tal Silvado Leung Vieira apanhou a sobra.
"Sentindo-se ameaçado e perseguido pelo regime a que serviu, ele afirma não ter tido alternativa a não ser abandonar o emprego no serviço público e também o país".
Missa para Herzog na catedral da Sé
foi o princípio do fim da ditadura militar
Uma ameaça concreta por ele recebida, diz, foi feita por um jovem oficial do Exército, quando caiu na besteira de dizer que ali aconteciam "coisas estranhas":
"É melhor ficar calado e não comentar nada. Se você não calar, a gente te cala".
E o repórter Lucas Ferraz deu as previsíveis derrapadas de quem escreve sobre o que não domina. Exemplo:
"...[Herzog] militava no partido, mas, segundo amigos, não exercia atividades clandestinas, nem poderia ser apontado como um quadro fixo do partido, que àquela altura já considerava a luta armada um grande erro".
O Partido Comunista Brasileiro não se direcionava para as atividades clandestinas; praticamente só se tornavam clandestinos os dirigentes, por motivos óbvios.

E, DESDE O PRIMEIRO MOMENTO, considerou a luta armada um grande erro, chegando a caluniar seus expoentes. Para evitar que os militantes prestassem ajuda solidária a combatentes da VPR, chegou ao cúmulo de afirmar em seu jornal que o comandante Carlos Lamarca seria um provocador a serviço do imperialismo, incumbido de fornecer pretextos para o fechamento do regime.

A REPRESSÃO HABITUAL E A FORA DE CONTROLE

Uma afirmação que já virou lugar comum: a de que éramos "barbaramente torturados". Sem dúvida, o éramos. Mas, com objetivos definidos e não por mero sadismo dos militares (que, claro, também existia...).

No caso dos militantes da luta armada, as torturas tinham intensidade extrema nos primeiros dias, pois a repressão queria arrancar de nós informações que lhe permitisse alcançar os companheiros lá fora, antes que, advertidos, estes abandonassem os  aparelhos  tornados inseguros e deixassem de cobrir os pontos  agendados conosco.

Não havia tal premência no caso de Herzog, daí ser mais plausível a hipótese de  acidente de trabalho. Ou seja, a de que não pretendiam propriamente massacrá-lo, mas fazer com que se incriminasse, e incriminasse a outros.

Ocorre que o choque elétrico --a modalidade de tortura que eles mais utilizavam quando não queriam deixar marcas-- é imprevisível. Se curto, não desconcerta tanto. Se longo, pode causar enfarte (até porque não se consegue respirar enquanto ele dura). Eu diria que erraram a mão com os choques elétricos e se viram às voltas com um defunto indesejado, tanto que tudo fizeram para camuflar o sucedido.

Também é interessante este testemunho do então governador Paulo Egydio Martins, hoje com 84 anos:
Onde morreu Herzog: o DOI-Codi funcionava
nos fundos desta delegacia paulista
"Havia um comando paralelo no Exército, e é bem provável que houvesse também um comando anarquista na Secretaria de Segurança Pública. Esse era um problema absolutamente crítico, que infelizmente saiu do controle".
Foi exatamente a tese que defendi: a de que a corja do DOI-Codi,  na contramão da  abertura lenta, gradual e progressiva do ditador Geisel, prendeu o coitado para retaliar o governador Paulo Egydio (amigo do jornalista) e para tentar mostrar que seus  préstimos  ainda eram necessários, seja fazendo alarmismo acerca da exageradíssima infiltração comunista na TV Cultura, seja acalentando a possibilidade de que os alunos de Herzog na USP botassem o movimento estudantil na rua.

De resto, o termo anarquista é inadequado neste contexto. Melhor caberia ultradireitista ou fascista.

E quem observou a atuação da SSP nos episódios da USP, da cracolândia e do Pinheirinho tem razões de sobra para concluir que o problema continua até hoje fora do controle.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

SOBRE OS DIREITOS HUMANOS EM CUBA E NO BRASIL

"Nós vamos falar de direitos humanos em todo o mundo? Vamos ter de falar de direitos humanos no Brasil, nos EUA, a respeito de uma base aqui que se chama Guantánamo."

Esta aí uma afirmação da antiga companheira e atual presidente do Brasil, Dilma Rousseff, com a qual concordo plenamente. Sempre considerei mais importante falarmos sobre direitos humanos no Brasil, que é onde temos obrigação de os defender, do que em outros países, a respeito dos quais nossas opiniões dificilmente exercerão a mínima influência (*). Aqui podemos fazer a diferença; alhures, quase nunca.

E a discussão dos direitos humanos no Brasil é fundamental hoje: não só nossa tíbia redemocratização permitiu que presos comuns continuassem até agora, 27 anos depois que o Brasil saiu das trevas ditatoriais, submetidos a torturas semelhantes às que os presos políticos sofríamos nos DOI-Codis dos carrascos militares, como está em curso um processo de fascistização que já registra terríveis violações dos DH na USP, na cracolândia e no Pinheirinho.

Percebe-se claramente que a truculência autorizada por Geraldo Alckmin na capital paulista é um balão de ensaio para, se engolida, nortear a atuação policial em muitas outras cidades brasileiras.

Então, nossa presidente precisa mesmo acordar de sua letargia e começar a agir consistentemente para proteger os direitos humanos no Brasil, antes de ter lições a dar a outros países.

* O senador Suplicy, o Carlos Lungarzo da Anistia Internacional, eu e tantos outros brasileiros com espírito de justiça protestamos infinitas vezes contra as torturas infringidas a cidadãos sequestrados em seus países e arrastados para o inferno de Guantánamo. Fizemos o que tínhamos de fazer, mas sem ilusões: sabemos muito bem que de nossos protestos não adveio resultado concreto.
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